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2016

TREMA! Festival de Teatro

(RE) CONSTRUÇÃO...

Quando o 4º atentado foi deflagrado, no ano de 2256, muitos ouviram de longe os ruídos e sentiram o chão estremecer. Os que se encontravam no local se abismaram com a ousadia daquele grupo de pessoas trajando ternos escuros e gravatas listradas. Já era noite quando cada um trouxe consigo uma espécie de grosso cinto afivelado à cabeça, o que posteriormente se descobriria ser um conjunto de dinamites. Ao realizar o ato explosivo de suas próprias mentes, espalharam pela cidade questões inimagináveis.

Muitos foram os relatos sobre os desdobramentos. Os mais surreais diziam que, em vez de miolos, de suas cabeças foram arremessadas mulheres biônicas que pareciam saídas de zines, além de uma legião de anjos-travestis que modificou radicalmente a maneira de olhar o mundo a partir de então.

O disse me disse propagou-se pela cidade. Alguns bradavam que se tratava de guerrilhas revolucionárias, até mesmo comunistas. Outros propagavam a notícia de que estariam ligados a lutas ancestrais ou a grupos de libertação. Todos, entretanto, conseguiam perceber a urgência que aquele ato deflagrava: uma tentativa de rompimento com questões que, de tão absurdas, acabaram por se tornar banais. Já não dava mais para suportar. Já não dá.

As pessoas começaram a ocupar as ruas com a certeza de que tudo aquilo não poderia ser em vão. Espaços anteriormente dedicados ao compartilhamento de ideias e reflexões começaram a ser reabertos. Líderes que durante muito tempo se revezavam em cargos e funções perceberam que já não havia espaço para tamanha incompetência e desapareceram sem deixar rastros. Empreiteiros, essa raça que mais prevarica com o Estado, começaram a implodir suas obras — que de arte nada possuem — numa tentativa de apagar seus legados destruidores.

Foi preciso mergulhar no caos para (re)construir tudo. Questões urgentes foram postas à mesa: identidade, gênero, educação, ditadura, história. Tornaram-se a ordem do dia. Os lados se evidenciaram e as pessoas finalmente conseguiram compreender o que as une e quem as divide.

Dizem que foi um período para se guardar na história. Dizem.

E pensar que tudo começou apenas com um tremor.

 

Muda a língua, muda o texto, muda a cena. TREMA!

*** texto adaptado do programa do festival

ESPETÁCULOS: Jacy | Grupo Carmin/RN, Quem tem medo de travesti? | As Travestidas/CE, Isso é para dor | 1ª Campanhia/MG, Sobre dinossauros, galinhas e dragões | 1ª Campanhia/MG, Retomada | Grupo Totem/PE, pa(IDEIA) pedagogia da libertação | Coletivo Grão Comum/PE, Soledad – a terra é fogo sob nossos pés | Cria do Palco/PE, Vaga Carne | Grace Passô/MG e Vento forte para água e sabão | Cia Fiandeiros/PE.

DEBATES: O travestismo no teatro e a cena queer |Silvero Pereira (CE), Marcondes Lima (PE) e mediação de Rodrigo Dourado (PE) e Trema em revista: processos criativos da cena contemporânea | Francis Wilker/DF, Henrique Fontes/RN e mediação de Olívia Mindelo/PE

FESTA: Cabaré das Travestidas | DJ Fabinho Vieira/CE, Savana Gilt/PE, Vini V/PE e Ana Giselle/PE.

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